Toxina, tóxico, intoxicação…

28 novembro 2009 Não há comentários

A idéia de toxina passa por diferentes caminhos. Geralmente associada ao que é tóxico ou àquilo que faz mal ao outro, pode ser entendida como algo presente no ar, na água, no solo, no lixo, ou então como algo produzido por um ser vivo. No nosso cotidiano, é comum pensarmos nas toxinas como uma substância nociva que está no ambiente, podendo ser tanto um agrotóxico como um veneno animal. Já entre os pesquisadores que estudam as toxinas, elas são definidas como uma substância secretada sempre por seres vivos, que pode influenciar a saúde de outro organismo.

Muitos seres vivos produzem toxinas. Por milhares de anos, plantas, animais e microrganismos vêm produzindo uma verdadeira farmácia natural. As plantas, por exemplo, por muito tempo foram vistas como as maiores produtoras de toxinas. Ao contrário de nós, as plantas não conseguem se defender pelo mecanismo de luta ou fuga, mas precisam se defender de alguma forma contra animais que as atacam. A biodiversidade química dos vegetais pode ser o resultado de milhões e milhões de anos de co-evolução entre plantas e predadores. Ao pensarmos nisso, a idéia de que as plantas têm moléculas biologicamente ativas, como as toxinas, passa a fazer todo sentido. Mamona, mandioca-brava, urtiga, comigo-ninguém-pode são vegetais que apresentam em suas estruturas diferentes toxinas. Quando ingeridas ou manipuladas, possivelmente causam intoxicação, vômito, irritação local, convulsão e até morte. Animais, apesar de se locomoverem, também usam suas toxinas como proteção, obtenção de alimento e digestão. As toxinas presentes nos venenos de aranhas, escorpiões, lagartas, anfíbios, serpentes e animais aquáticos (arraias, águas vivas, peixe sapo ou niquim, entre outros) possuem ações características.

Os efeitos ocasionados pelos venenos desses animais podem agir no local da picada ou do ferimento, provocando inchaço, dor e até gangrena, como nos acidentes com jararacas e arraiais. Os venenos podem agir também em outras partes do corpo, provocando hemorragia, como no caso dos acidentes com lagartas. Podem ainda, por exemplo, provocar alterações na pressão sanguínea e nos batimentos cardíacos em uma criança quando picada por um escorpião. As toxinas produzidas por microrganismos, como algumas bactérias e fungos, também podem prejudicar a saúde de plantas e animais, como a vassoura de bruxa (provocada por fungos), que deixa os ramos do cacaueiro secos, e o botulismo (provocado por bactérias), que causa paralisia muscular.

Os estudos feitos sobre as toxinas permitem a integração de diferentes áreas do conhecimento, como a história natural, a filogenia, a evolução, a imunologia, a bioquímica, entre outras. Ao conhecermos, por exemplo, as dietas de determinadas serpentes, no campo da história natural, podemos imaginar quais são as toxinas presentes em seu veneno, objeto de estudo da bioquímica, e levantar hipóteses sobre as relações de parentescos entre elas, no campo da filogenia e evolução.

Estudos sobre as toxinas podem ainda levar à produção de novos fármacos. No Brasil e no mundo, importantes instituições se dedicam à tentativa de desenvolvimento de novos remédios a partir de toxinas encontradas em vários seres vivos. Geralmente baseados nos conhecimentos de comunidades locais, cientistas identificam organismos que produzem toxinas, avaliam as possibilidades de uso dessas substâncias e utilizam técnicas e equipamentos inovadores para transformar essas moléculas em remédios que possam ajudar a combater a dor, inflamações, tumores ou outras doenças.

Um dos remédios mais utilizados para combater a pressão alta, por exemplo, foi desenvolvido a partir do veneno da jararaca, uma serpente brasileira. Um dos componentes do veneno dessa cobra tem um efeito hipotensor, ou seja, promove uma baixa na pressão arterial. Utilizando a ação das moléculas do veneno de jararaca como um modelo, pesquisadores americanos e ingleses sintetizaram substâncias químicas que abaixam a pressão arterial humana. Um outro exemplo é a toxina botulínica, que recentemente tem sido utilizada com fins estéticos, como o conhecido Botox. Essa toxina também tem sido utilizada com fins terapêuticos, como no tratamento de espasmos musculares, de algumas dores de cabeça e da produção excessiva de suor e saliva. Entre as toxinas vegetais, uma das mais potentes é a toxina produzida pela mamona. Estudos sobre ela podem gerar uma nova vacina para que o gado se previna dos efeitos nocivos dessa e de outras plantas.

Mas a transformação de toxinas em remédio não é tão simples como parece. A produção de novos fármacos passa por diversas etapas e por um caminho de validação pela sociedade, para comprovar sua segurança e eficácia. Somente depois de vários anos de desenvolvimento, as toxinas produzidas por microrganismos, plantas e animais podem dar origem a remédios que combatem as mais variadas doenças. Nesse caminho, é necessário garantir a preservação das espécies das quais é retirada a substância estudada. É importante ainda assegurar a inclusão, da forma mais ampla possível, de todos os segmentos sociais envolvidos, como comunidades locais, ONGs, instituições de pesquisa e órgãos do governo, garantindo que os benefícios sejam partilhados. No processo de produção de novos fármacos a partir de toxinas de organismos vivos, todas as ações devem ter transparência e caráter público, já que a biodiversidade é um bem comum, ou seja, pertence a todos.

(Texto base para o video sobre Toxinas)

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